Um (grande) ponto final

Depois do post de ontem, algumas pessoas me perguntaram coisas que deixei em aberto – como disse, porque queria evitar estender-me demasiado. Vou trazer umas palavras mais, e com isso encerrar o assunto.

Primeiro, me perguntaram o que quis dizer com “na Europa não se vive das picuinhas que se vive no Brasil”. Quis dizer que se você fala que é contra o aborto, por exemplo, o mundo desaba sobre sua cabeça; você receberá a placa de “monstro”, será esconjurado de seu grupo social, e terá que viver na floresta como um eremita. Aqui, uma pessoa contra o aborto convive perfeitamente com quem é a favor, discutem, debatem pensamentos, e  vida segue. Com isso as pessoas aprendem, reafirmam seus conceitos, ou quem sabe mudam – porque a vida é assim: a gente vive, e a vida nos faz enxergá-la de outras maneiras. E isso não é motivo de vergonha. Vergonha é passar a vida inteira pensando do mesmo jeito.

Mas uma das coisas mais curiosas que vejo aqui é como que nós vemos os de “primeiro mundo” como uma referência, e eles o mesmo a nosso respeito. Vou dar um exemplo típico, que presenciei algumas vezes por aqui: como devem saber, na Europa em geral é comum fazer topless, ou inclusive nudismo. No Brasil, as pessoas descoladas dizem “eles sim são bem resolvidos, fazem essas coisas e não incomodam ninguém” (‘não incomodam’ é mentira, mas esse é um outro assunto). Aqui, quando você fala disso com alguém, o que ouve é “mas são vocês que têm isso do culto ao corpo, de se exibir nas praias, de usar aqueles bikinis minúsculos… isso sim é ser bem resolvido!”

Esse assunto, na prática, é mais profundo do que dizer que “a grama do vizinho sempre é mais verde”; novamente, é cultural. O ser humano vive de estereótipos, simplificações da realidade para facilitar sua análise do entorno. Além disso, existem as lendas que ajudamos a propagar diariamente, sem nem verificar se é verdade. Só dar uma olhada na quantidade de mentiras com cara de verdade que se compartilham no Facebook sem nem checar a veracidade, e vemos um pouco o tamanho do problema – o tal projeto da cura gay é um excelente exemplo dessa distorção, mas também é assunto pra outro tópico.

Meus amigos, em geral, sabem que sou cristão convicto – religioso jamais, mas cristão. Por alguns anos morei em Balneário Camboriú-SC, cidade turística de luxo, cheia de prostitutas, drogados, mendigos… uma coisa que eu curtia muito fazer com meus amigos era sair de noite atrás dessa gente e passar um tempo com eles, conversar, levar algo pra eles comerem… como alegra o coração ver a reação das pessoas! Mas me pergunto: será que ainda é possível fazer isso hoje em dia? Por causa de um plano de governo ridículo baseado num maniqueísmo bicentenário, provavelmente seríamos apedrejados se nos acercássemos dizendo que somos cristãos. Até 2011, quando saímos do Brasil, não era assim. O que mudou? Mas quem perde com isso, como sempre, é o povo, condescendente.

Mas não estou aqui pra discutir política. Quando vim pra cá, estava preocupado. Conheço algo de Design Gráfico (minha graduação), mas sou Game Designer. Pensava no quanto eu teria que correr atrás para alcançar meus companheiros de mestrado (3D para jogos), pois nunca fui lá um grande designer gráfico. “Afinal é uma das 10 melhores universidades do mundo”, pensava. Quanto me enganei. Qual não foi minha surpresa ao chegar lá e ver que, na prática, eu estava em pé de igualdade com todos – e em muitos quesitos, inclusive mais avançado. E isso que aprendi a desenvolver jogos sozinho, pois na época não haviam as opções que existem hoje!

O ponto aqui obviamente não é exaltar a mim mesmo, mas: as chibatadas deram certo! Em lugar do “quem sabe ralando muito eu chego lá”, descobri que eu JÁ cheguei lá. E digo mais: muito possivelmente você também já chegou lá, e ainda não se deu conta! Talvez não fossem necessárias tantas chibatadas, mas deu certo! O que me alegra de tudo o que está acontecendo no país, apesar dos pesares, é ter criado esse contexto favorável para trazer esse tipo de reflexão. Perceber que não somos exatamente o país de miseráveis que até hoje dizemos que somos. Que brasileiros são muito valorizados no mundo inteiro por sua criatividade, flexibilidade, disposição para trabalhar… nossa trajetória também tem seus pontos positivos!

Então vejo aquela pergunta sobre porque não investimos tão pesado no futebol quanto outros países, e me entristeço por ver tal mordaça imposta por uma sociedade covarde. A Alemanha deixou de ser potência por causa disso? Ou a Inglaterra? Futebol é um produto brasileiro de ponta, o melhor do mundo! Vamos extingui-lo por causa de pseudo-intelectuais chorões? Perder esse filão de ouro por nada? As pessoas falam que existem outras prioridades, mas se esquecem que quase 40% do que o Estado arrecada se perde entre gestão ineficiente e corrupção. Tem idéia do quanto se poderia fazer com isso? Consegue entender que o ponto principal é o quanto se perde, e não os investimentos que não sejam politicamente corretos? Adianta investir mais em educação, por exemplo, e continuar jogando fora quase metade de nossas riquezas? ESSE é o real problema. E o primeiro passo para remediá-lo se dá nas urnas – os demais se dão fiscalizando os eleitos, sendo honesto no seu dia a dia em tudo, ajudando ao que necessita. E levando a vida e o país a sério. Patriotismo faz parte desse processo, claro.

Resumindo: não se iluda, e não se deixe enganar. Nós podemos seguir sendo a maior potência do futebol mundial, e não há nada de errado nisso; podemos, inclusive, ganhar MUITO se levamos a coisa a sério. Não se deixe vencer pelo sentimento de vira-lata. Manda ele embora, porque o Brasil-colônia é passado! Leve a sério as coisas em sua vida, para que um dia de fato surja uma geração que se negue a aceitar a lama que se espalha por nosso país. Acredite mais em seu potencial, porque ele existe e o mundo “aqui fora” admira de joelhos. Se as potências nos vêem como um novo membro do clube, é porque eu e você somos membro dos do clube. Se eles vêem o Brasil como uma potência, é porque eu e você somos potência – lembre-se, o país somos nós! Vamos investir no futebol, na educação, no cinema, na saúde…. mas principalmente, vamos investir em tirar nossas máscaras e realmente levar a sério o nosso país, viver e fazer as coisas sem esse preconceito pseudo-intelectual. Essa é a grande diferença do “primeiro mundo” pra gente. Enquanto a gente não levar as coisas a sério, todo investimento virará vento. Pense nisso.

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