Sobre o melhor jogo da história do Brasil

Hoje postei um link no Facebook, onde um amigo me fez a seguinte pergunta:

Fábio, pergunta honesta para você que está morando na Espanha. Sempre tive a impressão de que isto (no caso, as cifras envolvidas no Futebol na Europa) poderia dever-se ao fato do Futebol, que é visto como um esporte das classes mais pobres no Brasil, ser um esporte mais “elitizado” (não sei se seria o termo certo, mas não veio outro em mente) na Europa, um espetáculo acompanhado por uma fatia mais abrangente da sociedade. É uma impressão equivocada?

Comentei que essa pergunta dá margem a uma resposta muito longa, pois abrange muitos assuntos diferentes. Deixei-lhe uma resposta rápida, que basicamente dizia: “o futebol aqui não é visto como no Brasil, pois a relação deles com as coisas da vida é muito diferente da nossa.” E conforme lhe prometi, agora pretendo ir um pouco mais a fundo no tema.

Como muitos devem saber, faz uns 3 anos que eu e minha linda esposa vivemos em Barcelona, Espanha. Tem sido uma experiência incrível em muitos aspectos, mas principalmente no sentido de que nossa visão de mundo tem mudado drasticamente; e pra melhor, eu diria. Vivemos num contexto completamente diferente de nosso país de origem, e vemos tudo acontecer de fora. É uma experiência incrível.

O primeiro que me surpreende, a cada dia que passa, é como nós brasileiros estamos equivocados sobre nós mesmos. Só quando a gente tem a oportunidade de conviver de perto com os tais “países de primeiro mundo” que a gente vê o tamanho do desvio. Talvez por nos sentirmos tão inferiores, ralamos o triplo pensando “um dia, quem sabe, a gente chega lá”; mas, na verdade, não acreditamos nisso. Criticamos os que vão longe, falamos mal, forçamos comparações com estrangeiros na intenção de diminuir nossos compatriotas bem sucedidos… minto? E pergunto: Em 500 anos de história, ainda não ralamos o suficiente pra “chegar lá”? Ou você, em sua vida inteira de trabalho árduo, acha que ainda tem muita chibatada pela frente, pra ser comparável aos “de primeiro mundo”? Vivendo aqui, percebi que em MUITAS coisas, estamos iguais a qualquer país dito desenvolvido – e em outras, inclusive, muito melhores! Mas não vou citar nomes, não quero me incomodar com os vira-latas de plantão que não querem aceitar essa simples (e boa!) verdade.

Essa distorção sobre nós mesmos é tão profunda que pouco efeito tem eu descrever ou dar exemplos; nos tornamos insensíveis a essa realidade, criamos uma casca depois de tanto tempo nos auto-flagelando. Infelizmente, creio, o único remédio pra isso é passar um tempo razoável em um país “de primeiro mundo”, pra entender como e porquê as coisas são como são, comparar consigo e com nosso país, e então começar a refletir. Mas isso faz bem, quebra MUITAS algemas, muitos espelhos distorcidos em que nos vemos. Sei que soa ridículo dizer isso, mas recomendo a todos os que possam fazê-lo, que o façam.

Um exemplo claro do tal “país esquizofrênico”, como bem definido por Sheherazade: somos o país do futebol (e concordo com o título ainda hoje em dia), mas como em tudo em nossa cultura, somos preconceituosos. É um esporte onde “só pobre se profissionaliza, pra mudar de vida”; “pega mal” ser de classes mais altas e querer cumprir tal sonho; embora a maioria das pessoas não diga abertamente, em geral se considera que ser um apaixonado pelo esporte “é coisa de moleque, de gente alienada”. Um de nossos principais patrimônios, tratado como lixo por uma “elite intelectual” – pois afinal de contas, para eles, “é o ópio das massas”.

E o tal do Game of Thrones, onde fica? Esse ópio pode? Novela e futebol é feio e lavagem cerebral, mas Big Bang Theory não? Gastar 2 horas do dia vendo um jogo é “coisa de desocupado”, mas ir no cinema – inclusive pra ver o tal “cinema cult” – pode? Esse é um dos principais problemas de nosso país, cada dia mais exposto: uma hipocrisia, um preconceito seletivo que assusta. Não dá nada se você for preconceituoso contra certas coisas e pessoas, mas ai de quem fala das que eu gosto! Me sentiria feliz em dizer que isso vai mudar com o futuro, mas agora mesmo não é o que parece. Alguém em algum site que li disse: “vão me apedrejar, mas não vi nenhum jogador alemão rezando no fim do jogo.” Esse preconceito pode? O que aconteceria se alguém escrevesse algo do tipo “o deputado Jean é ruim, pois afinal é gay” – o sentido é o mesmo, não? Mas o primeiro pode; o segundo, se der mole, você vai em cana. Hipocrisia em dose cavalar, vinda de quem deveria conduzir o futuro de nosso país. Isso que o Müller (fez o primeiro gol ontem) é cristão, que o juiz é pastor evangélico… então deveria ter roubado pro Brasil, não? mas claro, nenhum alemão estava rezando, por isso ganharam.

A essas alturas, você deve estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com a pergunta inicial desse post. E é aqui onde a coisa, ao meu ver, se torna interessante. De fato, aqui o futebol é um esporte com muito mais poder de penetração social que no Brasil; e curiosamente, a coisa ganha contornos muito distintos ao que nossa “elite politizada” pensa. Aqui você vê homens, mulheres, famílias, vovós, todo mundo junto nos estádios. “Mas aí as pessoas não se matam nos estádios como no Brasil”. De fato. Mas se você vai nos botecos, nas ruas, onde as massas se reúnem pra ver jogos, é a mesma coisa. É assim em qualquer lugar.

Catalunha, alguns devem saber, é uma região separatista. Um dia foi um reino, tomado por Castilha e pela França, e que até hoje seu povo clama por voltar a ser um “reino” independente; e por causa disso eles tendem a ser ateus, de esquerda, feministas, e todos esses crachás que agradam à “elite politizada”. Segundo essa elite intelectual brasileira (da qual você provavelmente faz parte), esses catalães deveriam desprezar o ópio e investir seu tempo em coisas mais “elevadas” como ler Nietzche, escrever odes ao comunismo… mas não! Em geral, quanto mais catalão “politizado” você é, mais fanático por futebol você é!

O time do Barça, pra eles, é sua seleção; portanto cada jogo – principalmente Real x Barça – ganham contornos claramente políticos. Por isso todos se reúnem para ver os jogos. É como aquelas fotos das pessoas ao redor dos rádios, durante a Segunda Guerra, esperando notícias. E eles são fanáticos, não simplesmente pelo simbolismo político, mas pelo esporte mesmo. Isso poderia acontecer com o basquete (que é uma febre aqui), ou com qualquer outra coisa… mas não, é com o “ópio puro” mesmo. Quem já veio aqui e viu de perto sabe que não estou exagerando. Mesmo em outros países, o sentimento de identificação com os clubes e com as seleções é visto como algo normal, porque se separam as coisas. E nem por isso deixam de ser de “primeiro mundo”. Nossa elite intelectual, doente, não consegue conceber tal cenário.

Diferente do Brasil, aqui eles sabem que ser jogador de futebol é uma profissão como outra qualquer – não somente comparando com outros esportes, mas também com outros empregos “mundanos”. As pessoas aqui muitas vezes reclamam dos valores astronômicos envolvidos no esporte (e cobram por causa disso), mas entendem que isso faz parte do esporte mais popular do planeta; entendem que isso gera milhões de empregos, e que não é diferente da indústria do cinema, da TV, indústria farmacêutica…

Os jogadores catalães do Barça, por exemplo, muitos são de classe média ou alta. E isso não é um problema, pois todos sabem que o gosto e a aptidão pelo esporte não tem classe social. Já no Brasil, “só pobre vira jogador”, pra depois ser massacrado com coisas do tipo “ganha essa fortuna e não faz nada”. Enquanto isso, nós crescemos em classes mais abastadas, e mantemos os mesmos vícios, preconceitos e maus costumes de nossos antepassados. Fazemos muito mais pelo país, com o muito que temos e recebemos? Como nos saímos quando medidos com nossa própria régua? Sempre repito a frase: a população aguarda um retorno pelo investimento suado no ensino público. Esperam que, com estudos, quem sabe uma geração decente saia e mude o país. Enquanto isso, se você vai numa federal, vê o festerê e o relaxamento com que a coisa é levada, principalmente pelos estudantes. O único retorno que damos é um profissional que vai tocar a vida, encher o bolso, e criticar Deus e o mundo (literalmente). E provavelmente você nunca pensou nisso, que 200 milhões de pessoas esperam ver seu suor convertido em ensino que mude a mentalidade do país, de cima abaixo – de quem tem poder pra mudar, pra quem tem poder pra mover a máquina. Mas infelizmente, o individualismo multiplica o efeito desse espelho distorcido. A vida é sua, e dane-se tudo o que você não faz, enquanto cobra. E a vida segue…

As pessoas aqui, nesse quesito, são mais bem-resolvidas, e por isso vêem que esse investimento vale a pena, apesar dos pesares. Nós não somos mais colônia, mas seguimos colonizados por nossos preconceitos. As pessoas aqui reclamam das cifras do futebol, mas entendem que num contexto sério, o retorno de tal investimento vale muito a pena. Não é à toa que o campeonato alemão é o mais rentável do mundo hoje, com 98% de média de público. Sim, 98%. Pergunta agora se aqueles R$1,4 bi foram mal investidos. Se não valeu pela enxurrada de empregos, negócios e oportunidades que com certeza está gerando – além do show de bola, dos clubes de ponta aos de rabeira.

Com isso, claro, não defendo a copa que foi feita. Nosso país ainda não é sério, e não é por causa somente dos políticos. Espero que tenha ficado claro que O PAÍS não é sério, e o país somos nós. O político corrupto é apenas mais um de nós, mas que conseguiu mamar direto da fonte. Você faria muito diferente, no lugar dele? Sério? Ou já esquecemos que ser sério e honesto é visto por TODOS como trouxa, otário, quadrado? Pense em suas atitudes diárias, e as pedras começarão a faltar. No fundo, se você é classe média ou alta, provavelmente é coxinha – pouco importando seu “clube” político, ou o quanto você insista em dizer que não encaixa nesse estereótipo “asqueroso”. Quem se vê num espelho distorcido não tem uma noção clara de como é de fato.

E quando digo tudo isso não tenho a intenção de ofender, atacar, nem de deprimir ninguém. Quero deixar claro, mais uma vez, o quanto nossa visão a nosso respeito é equivocada. Não percebemos que muitas vezes agimos exatamente como aqueles que dizemos odiar, pois já nem vemos mais o quão mal é muitas coisas que fazemos. É como Judas: começou roubando algumas das moedas que Jesus ganhava, e quando se tocou, tinha delatado-o por… umas moedas. Criticam David Luiz por dizer que só queria trazer um pouco de alegria pro povo… repito: ele não pode, mas seu entretenimento favorito pode? Só os atores/personagens do seu gosto podem trazer alegria pra sua vida, ainda que seja tão placebo e inútil quanto o futebol? Por quê?

Quando começarmos a encarar essas questões de frente, creio, as coisas vão andar um pouco melhor. Até hoje me surpreendo vendo gente de todos extremos possíveis convivendo juntos, sem o menor problema, aqui na Europa. Gays e cristãos, esquerda e direita… quão triste é pensar que isso é impraticável no Brasil de hoje. ninguém perde o tempo com as picuinhas típicas que vemos no Brasil, ainda que estejam em profundo desacordo entre si. Será que um dia chegaremos a esse nível de maturidade? Melhor: será que um dia você chegará a esse nível de maturidade? Você é o país, não somente os jogadores, os políticos, ou quaisquer outros ícones de sua preferência.

Quando pudermos dizer que “sim”, então, o futebol no Brasil terá o mesmo poder de penetração social que aqui na Europa. Então investir essas fortunas nos esportes valerão a pena, pois saberemos que vale, e faremos valer a pena – igual fazem aqui, e não deixam de ser primeiro mundo por causa disso. E o principal: gerará ainda mais dividendos, pois como disse Podolski (um dos carrascos de ontem), somos e sempre seremos o país do futebol. Aqui na Europa os países convivem perfeitamente com a busca por excelência no futebol, na saúde, no transporte, na segurança… pro Brasil ser assim, falta deixarmos de olhar pras questões da vida como clubismo: CR Direita x Esquerda CF, Futebol AC x Sitcom CF. Enquanto isso não acontecer, qualquer coisa que fizermos será mal vista – a depender dos preconceitos do outro. Essa elite intelectual podre, essa visão enviesada do mundo precisa acabar. E isso começa em mim e em você.

Tive que dar uma volta imensa, mas espero poder ter respondido à pergunta. E olha que evitei tocar em outros tantos assuntos que me parecem igualmente pertinentes!

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